Seu garçon! por favor uma...bandeja.


É comum em dias mais tensos querermos sair com a família para arejar a mente. Colado ao meu condomínio tem um desses bares a céu aberto, de bairro mais afastado e que cresceu onde não tinha absolutamente nada, sequer a perspectiva que poderia dar certo, mas deu.

Depois de algumas idas neste bar passei a observar que um determinado garçom, muito receptivo e cativante, não usava bandeja. Sim, isso mesmo, trazia tudo que os clientes pediam em incontáveis idas e vindas com bebidas, pizzas e petiscos diretamente na mão.


Confesso que fiquei mais incomodado quando cai no seu território e tive que tirar o meu pedido com ele. Bom, vamos começar com as bebidas... “por favor, um suco de laranja para ela, uma Heineken 600ml para mim e um DelVale de uva para minha filha”. Logo pensei...qual será que ele vai escolher para equilibrar na cabeça? Provavelmente a lata de suco!


Lembrei que havia assistido um vídeo que falava sobre o processo de recrutamento do Cirque du Soleil onde os malabares são selecionados em meio a ex atletas que estão acostumados a treinar habilidades do corpo inimagináveis para nós, mortais. Será que ele era um deles? E se voltássemos no tempo e nosso camarada malabares tivesse que atender um pedido de Noel Rosa:


“Seu garçom faça o favor de me trazer depressa Uma boa média que não seja requentada Um pão bem quente com manteiga à beça Um guardanapo, um copo d'água bem gelada”


Mas basta uma garrafa de Heineken para despertar o consultor que existe dentro de você. Acabei perguntando: “desculpe, sem querer me intrometer no seu trabalho, mas por que o amigo não usa bandeja para trazer os pedidos?” “tenho paciência não, uma vez levei um tropeço e cai com a bandeja no chão”; resposta curta e objetiva. Fiquei em estado de choque e olhando para ele sem saber o que responder.


A segunda garrafa desperta em você o engenheiro de produção. Comecei a fazer conta: se a distância entre a geladeira e a média de distância das mesas que ele atende é de 10 passos normais ou aproximadamente 10 metros e considerando, também, que o restaurante não contava com mesas individuais. Assim, nosso malabares, a cada pedido feito na mesa, em quase todas as vezes deveria trazer mais itens que suas duas mãos conseguem carregar. Se, numa noite movimentada, ele tivesse que dar 100 viagens a mais por não ter paciência em usar uma mísera bandeja terá andado desnecessariamente 1000m.


Pensei comigo: se um cantor resolver fazer sua performance para uma plateia de 1000 pessoas sem microfone ou um açougueiro resolver rasgar a carne com a mão por não gostar de usar faca ou algum dia ter se cortado com ela? Ou um cabeleleiro que resolver pentear o cabelo do seu cliente com a mão por não gostar de escova? É o mesmo que o palestrante que fica pedindo para outra pessoa passar seus slides ao invés de usar um simples passador de slides. Algumas profissões precisam de equipamentos. Garçom precisa de bandeja, médico precisa de estetoscópio e professor precisa de paciência. Não há como fugir disso.


Na volta para casa continuei com minhas intrigas internas: onde estava o líder desse local? Tem coisas que não dá para fazer campanha de conscientização, tem que ser implementado de imediato. Não dar para tentar conscientizar o eletricista comercial a usar o EPI depois que ele já fez manutenção na rede elétrica três vezes, na quarta vez pode ser fatal;


O líder determina os rumos do negócio. Quem deve observar a operação errada da equipe é o líder. É ele que deve entender que consultoria é investimento e não despesa, é ele que deve sair da sua bolha operacional e ver como seus concorrentes estão lidando com os problemas do cotidiano; É ele que tem que mandar o garçom usar o raio da bandeja!!


Fiquei pensando como seria Taylor aplicando os princípios da Administração Científica neste caso. Bastava explicar sua Lei da Fadiga para que ele entenda que seu salário poderia melhorar caso use sua energia de forma mais produtiva ao cobrir uma área maior que ele cobre atualmente. Seu patrão entenderia que precisaria de menos garçons atendendo e ele veria que teria mais 10% em taxas de serviço creditados na sua conta no final de cada mês. Simples.


O que era para ser uma noite divertida e agradável se tornou um momento frustrante e tenso para mim. Não voltei mais lá. Faço meus pedidos pelo Ifood agora na esperança que sempre chegue no horário previsto para que não precise me preocupar em entender os erros na sua operação logística.